Reflexões sobre o jargão ‘não existe almoço de graça’

Reflexões sobre o jargão ‘não existe almoço de graça’

Um dos jargões mais difundidos entre os profissionais de economia e finanças é a frase ”não existe almoço de graça”.

Você quer investir em uma empresa e não quer correr riscos?

Não existe almoço de graça.

A empresa pela qual trabalha quer inovar sem investir em Pesquisa e Desenvolvimento?

Não existe almoço de graça.

Por esses dois exemplos já entendemos do que se trata. E dá para perceber que os eles fazem sentido.

Mas qualquer jargão que faça sentido em um contexto pode ser usado onde não devia.

Por isso, a ideia desse texto é fazer uma provocação sobre o quanto essa frase não virou um clichê. Daqueles que impedem a avaliação das oportunidades que estão por aí.

  • Quem sabe não existem almoços mais baratos do que grande parte das pessoas e empresas vem consumindo?
  • Quem sabe não existem pratos mais saborosos e nutritivos?
  • Projetos que tragam ganhos maiores em menos tempo.
  • Mercados com mais potencial a ser explorado.
  • Decisões de carreira que nos coloquem em situação melhor no médio prazo.

Antes de repetir mantras, vamos retomar as origens do jargão.

No mundo financeiro se diz que caso existam oportunidades de ganho fácil no mercado, os agentes irão comprar e vender papéis de modo a fazer com que os preços dos ativos se alterem. Assim, rapidamente a oportunidade desaparece.

Nesse universo, depreciar a noção de que não existe almoço de graça seria irresponsável. Existe uma porção de profissionais buscando oportunidades de arbitragem, de modo a deixar o mercado financeiro ao menos em equilíbrio de expectativas.

Mas será que funciona bem assim na economia e na vida real?

As decisões do dia a dia não são como papéis de empresas. Não temos a mesma mobilidade de se desfazer de projetos quando não os consideramos mais interessantes. Nem de embarcar de uma hora para outra em empreitadas que avaliamos interessantes.

Também não contamos com informações suficientes sobre as nossas decisões. Existem entraves físicos, cognitivos e emocionais. E ao contrário do que sugere a teoria econômica mais tradicional, nossa racionalidade é limitada.

Talvez até chegamos a escolher o prato que parecia mais interessante em determinado momento. Mas, muitas vezes, nos agarramos a ele pela inércia e depois esquecemos de avaliar quais são as novas opções do cardápio.

Para “comer melhor e mais barato” as pessoas tem que optar por lidar com seus conflitos, aceitar a incerteza e sair da sua zona de conforto. Atitudes que não são nada fáceis e que, portanto, tem seu custo e seu risco (principalmente em tempos de crise).

Grifo e negrito ‘principalmente em tempos de crise’ pois como planejador financeiro devo ter a responsabilidade de frisar que antes de “trocar de restaurantes”, é preciso de um tanto de cautela. E no momento que vivemos, esta deve ser redobrada. Se você não consegue valorizar o que tem de bom no seu prato de hoje, não vai saber qual é o custo da mudança.

Pensando assim talvez valha a pena mudar a nossa conclusão e reafirmar que não existe mesmo almoço de graça. Só que é preciso entender esse conceito para além das narrativas do dinheiro e da economia. Para isso, sugiro inserir nessa equação o custo de lidar – ou o custo de não lidar – com os nossos conflitos mais íntimos. Em um mundo complexo e incerto.

10 de julho de 2017

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