Reflexões sobre metas de ano novo

Reflexões sobre metas de ano novo

Estamos em clima de virada e tomei um tempo para escrever sobre promessas e metas de ano novo que costumam borbulhar nessa época.

Ao fazer isso, me vi dividido entre duas linhas de pensamento.

 

Linha de pensamento 1

Essa talvez mais otimista,  influenciada pelo clima que paira.

O trecho do famoso poema de Carlos Drumond de Andrade ilustra bem:

“Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano
se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez
com outro número e outra vontade de acreditar
que daqui pra adiante vai ser diferente”

Como ninguém de fato consegue planejar a vida do começo ao fim, as viradas de ano são oportunidades para reflexões e reavaliações das nossas escolhas. Permitem a analise de uma fatia de tempo e o desenho de um planejamento para o próximo.

 

Linha de pensamento 2

A outra linha de pensamento talvez explique porque tanta gente desiste de fazer um planejamento financeiro mais eficaz ou de realizar aquilo que se propôs em alguma esfera não financeira.

Aqui mais uma vez trago uma referência.

Agora dos memes do personagem Chapolim Sincero na internet.

metas-de-ano-novo

Mas porque os planos falham?

Em primeiro lugar, sejamos simples: porque é difícil mesmo.

Mas baseado nas teorias da psicologia econômica e psicanálise, sugiro alguns motivos mais.

  • 1. Se você pôde analisar a faixa de tempo que se passou, mas não tirou nenhuma lição disso para planejar a que vem por ai, você não está se planejando na virada do ano. Está somente fazendo um desabafo daquilo que te incomoda em você. Um desabafo em formato de promessa.

Planos precisam de contato com a realidade, do contrário tornam-se meros devaneios ou puro discurso histérico.

  • 2. Se você seguiu essa linha de desabafo e falou mais dos seus desejos do que da possibilidade de colocá-los em prática, provavelmente subestimou a influência que os acontecimentos do ambiente externo vão ter sobre você. Tudo bem, um pouco de autoengano faz parte. Todo mundo precisa de uma dose da ilusão de que controla o futuro para sobreviver e construir algo. Mas o problema vem quando exageramos na dose e assumimos que tudo o que acontece com o mundo está sob nosso controle. Não está.

Somos seres frágeis, vulneráveis, e interdependentes. A realidade nos afeta. Vale mais se preparar para lidar com ela do que fingir que ela não existe ou não afeta.

  • 3. Além dos contratempos que a realidade externa pode impor, é bem comum que a gente subestime os limites da nossa capacidade cognitiva. Eu por exemplo quero voltar às aulas de bateria, quero fazer aulas de teatro, quero viajar mais, quero fazer um curso introdutório de psicanálise, quero ir a um congresso de psicologia econômica em Tel Aviv, quero colocar uma rotina na prática de meditar, quero começar a fazer alguma atividade aeróbica, não quero deixar de lado o pouco yoga que tenho conseguido praticar, acho que um pouco de musculação ia bem, gostaria de experimentar um grupo de bike noturna, quero melhorar a minha dieta e quero mudar de apartamento….. Ufa! Acho que fica meio óbvio que se eu não souber renunciar a algo, não vai dar muito certo.

Esgotamento cognitivo é a expressão para isso. É fácil fazer o “eu de hoje” decidir pelo “eu de amanha”, mas tá faltando combinar com ele né?

O 31 de dezembro às vezes é como uma Black Friday.

Parece que ele te obriga a tomar uma decisão impactante antes que a promoção acabe.

Se você já tem alguma decisão que está amadurecendo ai por algum tempo, legal: vá surfar a onda. Se não for assim, um sinal amarelo e um olho no emocional são bem vindos.

A virada de ano é um ótimo estimulo ou empurrãozinho, mas não substitui a necessidade  de um contato mais amistoso com o nosso emocional para incorporá-lo às nossas decisões.

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